"O SENHOR Deus é a minha força. Ele torna o meu andar firme como o de uma corça e me leva para as montanhas, onde estarei seguro." Habacuque 3.19

Lugares Altos

Entramos todos no pequeno e apertado avião de Asas de Socorro para o último curso deste ano e, depois de terminar o check list, o piloto gritou "livre!", dando início ao nosso voo. A princípio eu iria sozinho para a aldeia de Mato Grosso, porém fui avisado que a situação lá demandava uma equipe, a fim de que o curso fosse dado da melhor forma possível, sem muitos atropelos e preocupações fora a de ensinar. Pronta e animadamente, Edson e Myriam toparam o desafio e preparamos tudo para a viagem. Não era nem de longe uma equipe inédita, sendo que no início da minha caminhada com o MICALI, há quase cinco anos, já havíamos feito algumas boas viagens e cursos juntos. Mato Grosso era uma das poucas aldeias em que a MEVA trabalha que eu ainda não tinha ido ensinar, e ir lá pela primeira vez me deixou muito animado, apesar de deixar Elisa e as crianças para trás, por questões logísticas óbvias.

Essas pequenas despedidas têm sido cada vez mais "dramáticas", especialmente para a Isabela, que chora minhas idas copiosamente. Haja coração. No fim do "processo" de despedida ela diz: "Papai, você está indo para ensinar de Jesus para os indiozinhos?" Respondo que sim, e daí ela diz, "Então pode ir", e chora de novo... Mas depois tudo se acalma e vida que segue, como diz um velho amigo. ​​ A aldeia fica no extremo norte do Estado de Roraima, praticamente em cima da linha do mapa que demarca a fronteira com a Venezuela. Chega-se lá de avião, após uma hora de voo, aproximadamente. Para irmos por terra, é preciso de um carro 4x4, mas ainda que fôssemos com um, precisaríamos chegar na aldeia pela Venezuela, pois não há estrada indo pelo Brasil, dessa forma o acesso aéreo torna-se vital. Por situar-se entre as montanhas, com quase 4000 pés, em dias claros pode-se ver o Monte Roraima bem nitidamente. Os indígenas que lá residem são da etnia Macuxi, que predominam nessa área de Roraima. Todavia, por estarem muito próximos da Venezuela, encontramos a etnia Taurepang (ou Pemon, para os venezuelanos) na aldeia. Dessa forma quase todos na aldeia falam quatro idiomas: português, espanhol, macuxi e taurepang. E, infelizmente, ainda há quem pense que ser indígena é sinônimo de raça inferior e ignorância pura! ​ Fora o aspecto cultura e linguístico diferenciado, o fato de estarmos em montanhas chama a atenção para a geografia diferente da que estamos habituados, mas, sobretudo, é o clima que nos chamou mais a atenção. Acostumados a ensinar dentro das florestas, sempre úmidas e muito quentes, estar na aldeia de Mato Grosso fez-nos pensar que lá é um pedaço do paraíso na Terra. Devido a altitude, as temperaturas são bem mais amenas, diferentes do "quente" e "muito quente" que perfaz os demais lugares em Roraima. O fato de passar uma semana num lugar onde não se está suando o tempo todo é muito bom, podemos resumir assim. O lugar é lindo, como podem ver nas fotos, e essa mudança geográfica, é perceptível pra onde quer que se olhasse e a vista alcançasse. Entretanto, para não dizer que não falei das flores, o lugar é infestado de piuns, o que no sul do Brasil se assemelha ao borrachudo. São miríades, que entram pela boca, nariz, olhos e picam por todos os lados... Há quem blasfeme dizendo que esses pequenos insetos escaparam de alguma fresta do inferno! Prefiro pensar que cumprem algum papel na criação que ainda não pude entender direito... O tempo que tivemos com a igreja e a liderança foi muito proveitoso e enriquecedor. Fomos na missão de ensinar a segunda parte da matéria sobre a Igreja. Essa matéria visa fazer um apanhado geral, com um viés mais direto e prático, usando o livro de Atos e as epístolas como esteio. Os indígenas ainda não viram a Teologia como a força motriz do Universo, e preferem saber coisas mais práticas da Bíblia do que discutir o sexo dos anjos, se Adão e Eva tinham umbigo e por aí afora. As perguntas sempre andam mais em direção as dores que enfrentam no mundo, e como vencê-las e/ou amenizá-las, dando vasão a visão totêmica que os dirige como povo. Quando falamos, durante a semana, sobre a necessidade que a Igreja tem de testemunhar na sociedade em que está inserida, eu sabia que falava de algo maior, mais profundo, para eles como povo tribal. Se falo isso em alguma igreja de Boa Vista, que por ventura sou convidado a pregar, sei que não comunico tanto quanto comunico quando falo aos indígenas que vivem em aldeias. Ser testemunha numa aldeia é mais difícil, complicado e desafiador do que na cidade. Resumindo, ou é ou não é testemunha, não há meio termo. Todos te observam, são poucos indivíduos e você, como um nesse todo, precisa se relacionar com todos, por motivos de sobrevicência. Ou você é testemunha, ou você não é, simples assim. Simples pra eles. Como é muito comum nas aldeias, a quantidade de crianças é enorme. Myriam e Quinha cuidaram delas, contando histórias bíblicas, cantando louvores, fazendo mágicas, dando doces, numa verdadeira mini EBF. Tivemos alguns problemas com a falta de energia elétrica no local e o que haviam preparado não saiu exatamente como tinham planejado, mas nada retirou o espírito de servir, apesar dos imprevistos. Entre nós sempre brincamos sobre a necessidade de se criar um MICALI Kids. Seria muito bom se pudéssemos investir em professores nas aldeias para trabalharem com as crianças. Quem sabe um dia? Vamos orando por isso. ​ ​ Num dos dias, falamos ainda sobre a necessidade de pagarmos o mal com o bem, e dei como exemplo uma história que conheço, de um pastor que teve a filha assassinada pelo genro, e que, dias após a prisão, foi visitá-lo na prisão e oferecer o perdão. O pastor da igreja, irmão Jorge, foi lanchar um dia depois dessa aula em nossa casa e nos contou uma vez em que precisou fazer o mesmo. Ele estava em sua casa, quando por volta de meia-noite, foram em sua casa avisá-lo que havia assassinado seu filho adolescente com uma faca, no centro da aldeia, e que ainda estavam "brincando" com o corpo. Ele disse que pegou sua espingarda, calibre 20, e todos os cartuchos que conseguiu achar (cerca de 40). A esposa perguntou o que ele iria fazer, quando estava à porta, saindo. Ele respondeu - "Vou acabar com a festa. Atirar até os cartuchos acabarem". E saiu. Quando estava no meio do caminho da sua casa até a aldeia, na trilha, cego de ódio e cheio de vontade de se vingar, disse-nos que Deus lhe falou, como nunca tinha feito antes na vida. Deus lhe disse: "Pare com isso, agora! Eu te chamei para salvar, não para destruir!". Ele sentou no meio do caminho, as lágrimas vieram e chorou muito. Voltou para casa, para alívio da esposa, e disse que a Paz de Deus lhe invadiu de um jeito que ele dormiu. Quando acordou, um pouco antes do amanhecer, foi à aldeia e viu o corpo do filho, vilipendiado. Soube que o assassino era um rapaz um pouco mais velho e foi até sua casa. O rapaz o recebeu com um facão e lhe disse: "O que fiz com seu filho, faço com você também, vá embora". Ele disse ao assassino: "Vim apenas lhe dizer que não tenho medo de você. Vim para dizer que te perdoo. Se Jesus me conhecendo me perdoou, eu te perdoou também. E quero que você saiba que Deus ainda te ama, mesmo depois de você ter feito isso". O rapaz começou a gritar, como possesso, e o pastor Jorge foi embora. No outro dia, no intervalo da aula, ele me chamou e me apontou um rapaz que ia numa trilha, já longe. Era o assassino, que ainda vivia entre eles. Perguntei para ele como conseguia conviver com aquela situação e ele me disse calmo: "A gente precisa orar, meu filho, precisa orar sempre". ​ É essa minha sina, vou ensinar e aprendo a Lição. Louvado seja Deus que nos ama, perdoa e ensina. Somos muito gratos mesmo por obedecer a Sua voz e estar aqui doando toda nossa vida por esse Evangelho maravilhoso que transforma morte em vida, ódio em amor, vingança em perdão. Somos gratos por você também, querido mantenedor e intercessor, que segura a corda do outro lado, não esquecendo nunca que: quer seja enviando, quer seja indo, importa que essa Palavra chegue cada vez mais longe e a muitos, até que Ele venha, ou que nos encontremos com Ele pela morte.

Naquele que veio do Céu nos ensinar o perdão!